Contos Galácticos
Contos, artigos e traduções interessantes do Informátivo Galácito, o Fanzine exclusivo do Projeto Traduções para seus integrantes, liberados para apreciação do público em geral!
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Um Dia...
Que flutuem no céu naves espaciais.
Que brilhem nos sonhos os segredos que um dia lhes darão forma.
Que sejam dias de paz.
Que meus sonhos voem no espaço vazio.
Verdadeiros, velozes e comigo a ler um livro.
Verei pela janela o planeta se aproximando e não estarei sonhando.
Nesse dia o PR do mês será publicado em Vega.
E eu quem sabe leia primeiro que aqueles que estão na Terra.
Dito Muniz
Cafezinho do zap-zap - Projeto traduções
Rio de Janeiro, 30/01/2017
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OS ETERNAMENTE BONS
Amanhecendo.....
Uma brisa fresca, num dia claro.......
E eu aqui, estática...............
Eu aguardo - o sol - a chuva - o bicho - o homem.
Sirvo sem distinção - sem emoção.
Estou aqui em missão.
Observo passar a luz e a escuridão.
Do vermelho ao azul do cinza ao negro.
Fico seca - sinto a umidade - molhada eu pingo.
Tenho pés firmes com dedos fortes.
Abraço e racho com força a rocha profunda.
Mergulho bem fundo na água do mundo.
Vivo da Terra - transformo ela - retorno a ela.
Sirvo o mundo - seja noite - seja dia.
Eles chegam e partem como se EU fosse um mercado.
Tenho corpo e belos braços.
Meus dedos são pequenos ou grandes - duros ou delicados.
Quase sempre verdes - nem sempre assim.
Todo ano fico bonita e rica.
Oferto de graça aquilo que tiro do ar - da água - da rocha escura.
É só chegar - pular - subir - colher. Ou deitar e esperar cair!
Mas este não é o meu pesar!
Este não pode ser o meu reclamo!
Pois amo viver por esta razão!
SÃO ELES...…
Arrancam meus dedos em desespero,
meus frutos não maduros e meus braços imaturos.
POR QUÊ? PARA QUÊ?
Atiram o meu corpo ao solo sem pensar!
Uma sombra fresca a menos só pode incomodar!
Para no fim, nada de bom surgir de mim.…
Mas nada falo - nada digo por este castigo.
O único som que de mim escuto, não é de mim um produto.
É o som da machada em meu corpo...
A cada golpe carne minha se desprende e uma vida vai morrendo.
Vou ficar ali, deitada, bem quieta. Desidratando em silêncio enquanto a seiva fluir.
Em seguida vou secar - vou morrer. Com sorte uma semente vai sobreviver.
Enquanto relaxo e durmo, eu serei o adubo de meus parentes e de minha semente.
Sem raiva nem choro, mas reconheço minha vida de quase dor.
Não vejo, não falo, não sinto. Não me mexo, estremeço ou reajo.
Sempre crescendo e amadurecendo. Florindo, parindo e semeando.
Servindo a todos com de tudo um pouco.
Tenho por fim um fim. E talvez um começo em novo endereço.
Convenhamos, o nosso mundo é vasto e infinitamente variado...
"E eu sou apenas uma das vidas que doa vida sem se importar com a própria vida!"
Antonio Angelo
Cafezinho do zap-zap - Projeto traduções
Maceió, 09/11/2016
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Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A quinta parte d´O Contador de Histórias.
O Estranho
Após duas semanas neste paraíso, percebi uma certa inquietação em minha mãe. Com toda a minha atenção voltada às brincadeiras, não havia observado com atenção aos acontecimentos do dia a dia.
Bem, continuaria assim até aquela noite de sábado, quando retornei da casa de Phyl. Eu caminhava imerso em pensamentos, brincando com o vapor que minha respiração provocava na atmosfera gelada. E imaginando umas mil desculpas para explicar o meu retorno aquelas horas. Quando um canto de coruja devolveu-me a fria realidade.
Eu caminho por uma antiga e estreita trilha repleta de curvas. Margeada por rochas e arbustos que sempre escondem a curva seguinte. Do céu uma lua cheia traz algum conforto à minha escuridão. Apenas com o estreito facho da minha lanterna como guia. O chão é todo coberto de folhas e farfalha a cada passo. Estremeço só em pensar no mau funcionamento da lanterna.
O silêncio é assustador, e vez por outra é interrompido pelo lúgubre canto da coruja. Após mais algumas dezenas de passos, eu diviso por entre a vegetação a iluminação da nossa casa.
Ainda a matutar sobre uma desculpa para mamãe, eu abro a porta e entro na sala. Para minha surpresa, encontro mamãe embalando Karim. Quando ela percebe a minha presença, nada fala sobre a hora, e apenas me pede para levar Karim até o seu quarto.
Então, eu carrego a pequena em meus braços e a deito em sua cama. Protejo ela com cobertores e me volto para sair do cômodo. Antes de chegar à porta, eu percebo mas do que vejo, um movimento. Estaco imediatamente, olho ao meu redor e nada encontro. Mesmo assim, sinto o estômago embrulhar.
Enquanto estou curvado sobre o lampião reduzindo a sua luz, eu sinto um olhar fixo em mim. E volto a observar o quarto com um pavor redobrado. Fixando a minha atenção sobre um velho e estropiado boneco. Ele está jogado em um canto, entre outros brinquedos de minha irmã.
Reparo pelo canto do olho, e confirmo que a porta do quarto continua entreaberta. E um medo medonho invade a minha alma. Neste momento, percebo outro movimento no aposento e fico paralisado. Mas é apenas a minha irmã, que soluçando passa rapidamente pela fresta da porta.
Ao chegarmos repentinamente na sala a nossa mãe fica assustada. E nos pergunta o que aconteceu. Após eu lhe relatar, ainda um tanto confuso, aquilo que não entendia. Ela parece ficar seriamente preocupada e acaba levando Karim ao seu próprio quarto.
Ela retorna após alguns minutos com uma pequena caixa de madeira. E senta-se ao meu lado. Quando abre a caixa, ela retira do seu interior uma antiga bíblia e a acomoda carinhosamente em seu colo.
— Filho, tem algo de muito estranho acontecendo aqui. Por três vezes a sua irmã despertou assustada em seu quarto. Quando a faço dormir e a levo até o seu quarto, ela desperta em seguida assustada.
— Mãe, não sei se vai acreditar, mas tive uma sensação ruim ao olhar um boneco da Karim. Aquele sem um olho. E ele parecia me observar.
— Olha Josué, isto não é uma brincadeira, a sua irmã parece sinceramente apavorada. Venha comigo, vamos dar mais uma olhada no quarto, talvez seja algum pequeno animal escondido.
O rangido lento estalado da porta do quarto de Karim parecia prenunciar algo bem pior que um roedor escondido. E aquele boneco feio, já não estava aonde devia. Agora estava recostado na cabeceira da cama e parecia quase humano. O seu único olho solitário parecia querer saltar da sua órbita, e tinha um brilho febril. Em contrapartida, seu outro olho era uma cavidade profunda e negra.
Fiquei todo arrepiado! Olhando aquele boneco de 60 centímetros. Ele vestia um macacão vermelho desbotado e uma camiseta encardida de cor branca com faixas horizontais pretas.
— Meu Deus, nosso senhor... —, ouvi mamãe sussurrar. — Ele parece estar rindo do nosso pavor!
Não sei até hoje, se aquele sorriso foi uma peça pregada pela nossa imaginação assustada? Ou o resultado da grotesca maquiagem realizada por minha irmã no boneco.
A sua face horrenda, alem de distorcida pela chama do lampião, possuía inúmeras pintas coloridas nas bochechas redondas. Que aliais, eu vira a minha irmã pintando naquela mesma manhã.
Os cantos de sua boca vermelha, haviam sido pintados de verde. E pareciam repuxados para cima, simulando aquele grotesco sorriso. E como se não bastasse, os poucos tufos de cabelo cor de ferrugem, ainda presentes naquela cabeça infantil, em nada ajudavam e sim, reforçava o pavor repentino que invadia nossas mentes e corpos.
Para a minha surpresa, mamãe adentrou o quarto rezando com sua bíblia. A sua voz era melodiosa, quase hipnótica. E o lugar pareceu aquietar-se com a prece.
Percebendo a minha incredulidade. Ela falou baixinho para mim.
— A palavra de Deus, Josy, tem um poder para além deste mundo. — "Josy... este era o apelido carinhoso como ela me chamava."
Algum tempo depois, nos retiramos do aposento. Parecia que tudo voltara ao normal. Mas minha mãe continuou com as suas preces, enquanto caminhamos para a sala. No corredor, encontramos a vovó. E ela, após saber os últimos acontecimentos, parecia contrariada.
— Eu lhe avisei filha, tinha mesmo um estranho na casa. Eu só não esperava algo assim. Posso ver o quarto? talvez consiga ajudar.
Dentro do quarto e sobre a cama, o boneco fazia movimentos espasmódicos, como se ainda não dominasse a anatomia daquele pequeno corpo.
A tensão no interior do cômodo era quase insuportável, ao menor ruído eu me assustava. E quase saí em debandada, quando o corpo do boneco pareceu despertar.
A minha mão desprendia uma umidade fria e o coração batia forte e rápido, embora não aquecesse o meu corpo. O som da prece de vovó era um rumor profundo e monótono. Que logo foi interrompido.
De repente, o quarto ficou subitamente encharcado com uma intensa luz branco–azulada. Até os objetos inanimados pareceram adquirir vida. E a pesada janela abriu-se com um forte e seco estalo. Pude sentir um frio gelado escorrendo ao longo da minha espinha, e minha nuca ficou toda arrepiada.
O frio noturno, estranhamente, não penetrou no ambiente. Na verdade o quarto até ficou mais quente. E através da janela algo impossível aconteceu. Não é possível enxergar a silhueta das arvores, e o céu é completamente negro e sem estrelas. Olhar através dela é despencar num abismo sem luz, um portal para o nada absoluto.
— Por favor, saiam da minha frente! — E a minha corajosa Vovó avançou através daquele mar de luz. Retira de seu pescoço fino um pesado relicário, e deste, um minúsculo frasco contendo um liquido translúcido. Enquanto isso, caminha a passos seguros e decididos em direção a aberração, enquanto reza e derrama água benta no ambiente. E, lentamente, bem lentamente, a calma retorna ao quarto de Karim.
Foi quando mamãe exclamou. — Josué, esteja atento para ajudar a sua avó. Ela está a cada passo se deslocando com mais dificuldade, parece que atravessa algo viscoso.
Tento me aproximar para ajudar, mas não consigo me mover. A força física parece não adiantar neste lugar. Apenas a fé inabalável da minha avó parece abrir um caminho. Reconheço agora, o esforço quase sobre humano de vovó enquanto ela desafia este ambiente sobrenatural.
Como se a cada passo as suas forças fossem sendo drenadas, ela foi lentamente reduzindo o seu avanço e subitamente perdeu os sentidos. Caindo com toda força no piso de madeira.
— Oh, meu Deus, mamãe! Eu não deveria ter permitido... Vou chamar agora mesmo o seu pai, Josy. Fique aqui por favor.
E eu fiquei ali plantado, no limite da porta. E tudo parecia bem calmo e tranquilo. Teria vovó conseguido vencer aquele fenômeno?
Mal tinha pensado no assunto e...
Subitamente, como se uma gigantesca represa rompesse, o quarto voltou a ficar totalmente inundado por aquela luz e sua estranha energia que fazia crepitar o ar. Desta vez até os meus cabelos ficaram de pé. Era como se para recuperar o tempo perdido com a minha avó.
Agora no centro da janela, imagens abstratas coloridas vão e vem. Nas bordas do vão da janela, como formando uma moldura, a cor é de um vermelho escuro. E as imagens projetadas no seu centro são semelhantes a projeção de um filme antigo com defeito, e em alta rotação.
Percebo então uma pesada mão pousada no meu ombro e ela me transmite conforto e segurança. Era o meu pai, e ele também pareceu ficar paralisado diante daquela cena inusitada.
Enquanto isso, o boneco movimentava os seus membros e contorcia a sua boca de plástico. Como tentando pronunciar palavras, mas só o que escutávamos era o rangido do plástico sendo torcido.
Foram apenas alguns minutos, mas que para mim, pareceram uma eternidade. Mas, foi o quanto durou o nosso estarrecimento. Meu papai foi o primeiro a se recuperar do susto, e resolveu, com passos ainda que relutantes, aproximar-se daquela entidade incorporada. E parecia que a observava fascinado e sem nenhum medo.
— Josy..., eu não compreendo! Ele parece estar chorando!
E aproxima-se ainda mais, tentando tocar em suas lágrimas.
— Não existem de verdade, filho. São apenas uma ilusão, afirma surpreso.
Como se apercebesse tocado. O boneco aquietou-se.
Então no centro do quarto, uma diáfana neblina luminosa começou a adensar-se. Aos poucos foi adquirindo um contorno humano e em seguida estendeu as suas pseudomãos para o meu pai. Ela com gestos suaves parece implorar que ele a acompanhe.
Isso mesmo, foi o que entenderam, era uma mulher aquela forma de energia. Eu percebia claramente o seu cabelo longo e movimentado por uma brisa. Ela tinha uma cintura delicada e uma altura mediana.
Parecendo em transe, o meu pai a seguiu através do quarto em direção a janela. Mas antes de alcançá-la, ele cai por terra. Neste instante, superando todo o meu pavor, eu tento socorrê-lo. Mas novamente, não consigo sair do lugar.
Apenas observo, sem nada poder fazer por ele ou minha avó.
Percebo uma tênue névoa luminosa envolver o seu corpo desfalecido e adensar-se na medida em que dele se afasta. Então, estes dois corpos luminosos levitam através do quarto em direção a janela. A janela parece agora menos ameaçadora. É apenas um fundo negro envolto nas bordas por uma leve luminosidade vermelha escura.
Após as duas silhuetas brumosas sumirem nesta escuridão, eu senti no peito uma grande paz e um aroma de flores invadiu o aposento.
Quando percebi que a limitação de meus movimentos havia desaparecido, eu e minha mãe entramos no quarto e socorremos a minha avó. Que em poucos minutos, desperta de seu desmaio.
Já a preocupação com o meu pai não termina. O seu aparente sono é algo bem mais profundo. Mas como os seus sinais vitais estão normais, resolvemos esperar um pouco.
Transferimos com a ajuda de vovô, o meu pai para a cama da minha irmã, e fomos todos para a sala de jantar. Mesmo ainda nervosos e preocupados, tomamos algumas decisões.
Devido principalmente aos conselhos da minha avó, que parecia ter uma aptidão especial para aqueles mistérios, decidimos não abandonar a casa até o sol nascer. E rezamos para que nada de mal acontecesse com papai.
Eu não parava de olhar o relógio da sala; já passava das duas da madrugada e até agora nada.
Vovó ao relembrar o que lhe contamos, parece acreditar que a segunda névoa, aquela sobre o meu pai, talvez fosse a materialização da sua alma.
– Eu não presenciei o que aconteceu – falou meu avô –, mas se for verdade? Que viagem fantástica estará ele fazendo agora, e que perguntas misteriosas não saberá responder quando retornar?
– Será que terei o meu pai de volta?
Percebo que estou soluçando e mamãe envolveu-me num abraço afetuoso, embora com lágrimas em seus olhos.
Estávamos todos reunidos na sala quando sentimos a sua presença. Corremos todos até o quarto de Karim, e lá encontramos o espectro de uma mulher no meio do cômodo.
O seu contorno agora era extremamente nítido, dava até para observar os seus dedos individualmente e as mechas de seu longo cabelo. Tanto a parte de seu corpo visível, quanto aquela encoberta por sua túnica esvoaçante, são da mesma substância e de uma brancura extrema.
Com renovado espanto, eu tomo consciência de que é um espírito feminino, aparentemente jovem e delicado. O seu rosto, com exceção dos olhos, parece permanecer em constante movimento.
Com o meu pai despertando, eu desviei minha atenção da entidade e observo com ansiedade ele recobrar a consciência. Quando finalmente está em pé, ele nos olha por alguns segundos e caminha sorrindo em nossa direção. Sai do quarto, ainda com aquele leve sorriso estampado na face, e vai até a despensa. E retorna ao quarto em seguida, trazendo o seu material de pintura. E após depositar todo o seu material sobre a cama, ele sorri e acena delicadamente para a jovem entidade.
Jamais vou esquecer as cenas seguintes. Ele tranquilamente sentado na borda da cama, e o fantasma flutuando em sua direção. Em seguida, ela ajoelha-se de frente para papai, como em prece, permanecendo de costas para nós.
Papai começa a distribuir sobre o rosto do fantasma, uma fina camada da massa branca que ele costuma usar para cobrir as telas antes de pintar. E a seguir, começa a pintar o seu rosto.
As horas vão passando lentamente, mas após certo tempo perdemos a noção das horas. Saímos por pouco tempo e voltamos para observar aquela misteriosa cena. Os dois parecem não se incomodar com o movimento e papai parece totalmente absorvido pelo estranho trabalho.
Já se passaram três horas desde que ele iniciou a sua pintura sobrenatural. E novamente de volta ao quarto, eu percebo que ele guarda o seu material de pintura. Chamo a todos, e retorno correndo.
Meu pai agora esta de pé, e sorri para nós. Ao seu lado, uma bela jovem parece brilhar por dentro e nos sorri da forma mais linda e sincera que já vi. E o seu rosto, antes uma massa sem forma e em eterno movimento, agora é algo de rara beleza. Os tons das cores de sua face parecem perfeitos e naturais. Ele é muito expressivo e belo, na realidade é o que existe de mais humano naquele corpo de fantasma.
Após alguns minutos de uma imobilidade angustiante, sem ninguém saber exatamente o que fazer. Ela volta-se para a penteadeira e senta-se diante do seu espelho e parece ficar embevecida com a imagem refletida.
Enquanto isto, papai com uma estranha entonação na voz, nos contou o porquê, deste incrível acontecimento...1
O Livre-pensador (Josué)
1 Continua na sexta e última parte d´O Contador de Histórias no IG 24, em Janeiro de 2017!
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Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A quarta parte d´O Contador de Histórias.
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Férias, na Serra do Rio do Rastro
Eu tinha então 13 anos, e nossa família era constituída por meus pais, minha irmã, e os pais de minha mãe. Morávamos no município de São Miguel das Missões no estado do Rio Grande do Sul.
Meu pai era médico e mamãe uma professora. Nesta época, a minha irmã Karen tinha apenas quatro anos - Como sabem, ela faleceu há cerca de dez anos. E nossos avós por parte de mãe, moravam conosco.
Especialmente com o meu avô João, eu tinha um relacionamento para lá de especial. Quanto a minha querida avó Karol, ela era uma beata de carteirinha. A sua devoção era lendária. Recordo-me como costumava exibir, com orgulho indisfarçado, as suas chagas. Eram marcas arredondadas e escuras em ambos os joelhos. Causadas por permanecer ajoelhada por horas e horas em profunda adoração na igreja de nossa pequena cidade.
Naquele ano, decidimos não veranear na praia de Torres, no estado do Rio Grande do Sul. Meu pai entrou em contato com Samuel, o meu avô por parte de pai. Ele vivia nas serras do estado de Santa Catarina, junto a outros parentes de nossa grande família. E fomos convidados a ocupar uma linda casa, localizada próximo a cidade de São Joaquim. Onde atualmente é o parque nacional dos Aparados da Serra. Este lugar, fica a uns cem quilômetros de onde estamos. A casa ainda esta lá e é habitada até hoje.
Após dias de meticuloso planejamento, principalmente devido aos cuidados com a saúde de Karen. Partimos com o nosso surrado Ford de cor preta, arrastando de má vontade um carrinho coberto de lona. Onde os apetrechos de Karen, ocupavam quase todo o espaço.
Durante a longa viagem, passamos perto do mar, subimos serras e atravessamos muitos rios e riachos. As pequenas janelas do carro eram vitrines coloridas e fugazes. As vilas dos colonos atraiam a minha atenção, com suas casas de vários estilos de construção. Principalmente aquelas de telhados pontudos. E aí, não deu outra, passei a cobrir o meu avô com uma torrente de perguntas.
Como antigo marceneiro que era, ele explicava tudo de boa vontade.
— “Meu neto, observe a copa dos pinheiros a nossa volta. Você vê algo neles semelhante as casas?”
Pensei, pensei, e acenei para ele afirmativamente. É a forma cônica do telhado das casas, não é?
— “Parabéns! A inclinação acentuada da copa das diversas espécies de pinheiros, impede que a neve se acumule sobre elas e cause danos. Assim como aconteceria com as casas".
— "A natureza é a melhor professora do universo Josué. Ela é capaz de tornar até as árvores que não tem cérebro, seres sábios. No entanto aqui na serra, o perigo de nevasca é quase inexistente. Eu nunca soube de uma nevasca forte o bastante para por em perigo os seus habitantes".
— "Os colonos mantêm suas casas assim, com esta arquitetura, como uma forma de preservar a sua cultura. Pois vieram de terras distantes, onde nevascas são constante. Observe com atenção Josué, e verá distintas formas de construir as casas. Alguns preferem madeira, como os ães e íços, outros como os açoreanos e espanhóis, a alvenaria. Para mim, é suficiente o formato dos telhados, portas, janelas, e o material de construção das casas; para poder afirmar com alguma certeza, o povo que a construiu".
Aproveitando a sua boa vontade. Eu lhe perguntei o porquê de algumas igrejas dos povoados possuírem imagens e belos vitrais coloridos. Enquanto outras, pareciam tão simples, sem nenhum adereço. E ele em sua eterna gentileza e paciência me respondia sempre.
— “Filho, esta é uma terra de imigrantes. Aqui na serra estão representados um grande número de povos, vindos das mais variadas partes do mundo".
— "Grande parte deles, Josué, a sua família vêm reunindo aqui há gerações. E eles trouxeram consigo as suas diferentes formas de honrar a Deus. Os católicos, por exemplo, apreciam imagens e belos vitrais em suas igrejas. Já os protestantes ou luteranos, não compartilham desta cultura.”
Ouvi um resmungo baixo ao lado de vovô. E a minha avó falou cheia de convicção. — “São todos uns pecadores e traidores do representante de Jesus na Terra - São Pedro. Ele foi o maior dos apóstolos e o legítimo herdeiro do filho de Deus na Terra. Glória eterna, ao meu Senhor, Jesus Cristo!"
Curioso, eu olhei para o vovô. Ele me deu uma piscadela divertida e me cutucou levemente. Então, dei um pigarro e falei o protocolo para situações assemelhadas.
— Amém!
E continuamos pulando pelo caminho, através de vales e montanhas. Vez por outra, meu avô descia do carro para obter informações nas vilas. Ele falava com entusiasmo e naturalidade, uma meia dúzia de idiomas.
Papai até brincou com ele.
— “Sr. João, parece que o seu conhecimento do Alemão, Húngaro, Italiano, Espanhol e sei lá mais o quê, não enferrujou nem um pouco!”
— “Ah, meu filho! Foram muitos anos perambulando nestas serras. Viajando de vila em vila, exercendo o meu ofício. Foi uma pena ter encontrado tão poucos amigos daqueles tempos."
E papai, continuou.
— “Sr. João, eu não sabia que conhecia tão bem estas terras. Não sei se sabe, mas a minha Família vive aqui a gerações, e tem verdadeira adoração por estes vales. Eu sou o único que resolveu viver longe".
— “Juarez, eu conheço a história da sua Família e sou amigo de muitos deles. Durante a minha juventude eu fui um construtor de casas muito respeitado por estas bandas".
Finalmente chegamos á serra do rio do rastro. Subimos uma cadeia de montanhas particularmente alta, através de uma estrada tortuosa e estreita da qual se divisava lá no fundo um rio. E por fim, avistamos os famosos e impressionantes capões de araucárias. Um campo aberto, suavemente ondulado e aparentemente infinito. Coberto de uma relva alta e dourada, entremeada aqui e ali por arbustos, pinheiros brabos e bosques de gigantescas araucárias.
— “Chegamos!!" — Falaram quase ao mesmo tempo, papai e vovô.
E avistamos após uma meia hora de caminho. No ponto mais alto de uma suave colina arborizada, uma charmosa casa de madeira e rochas.
Ela é cercada por um muro baixo de rochas velhas. Algumas araucárias e inúmeros arbustos, muitos deles floridos, rodeiam a residência. Achei tudo muito bonito, silencioso e relaxante. A arquitetura da casa era indefinida para mim, parecia baixa e atarracada. Embora forte e indiferente ao tempo.
Enquanto nos aproximávamos por uma delicada estrada coberta de cascalhos, escutei uma sinfonia de sons, sob os pneus do carro. Parecia um convite de boas vindas.
Vindo pelo caminho de seixos, um senhor de cabelos grisalhos caminha a passos firmes. Ele aparenta avançada idade, como meu avô. Seus gestos são comedidos, até reservados, típico destes moradores do interior. Usava um macacão azul desbotado e uma camisa branca de botões com as mangas arregaçadas. Era certamente um colono da região.
— Olá! Bom dia a todos e bem-vindos! Meu nome é Morgan. Fui informado por seus irmãos, que o senhor viria para ficar conosco algumas semanas. Adiantei algumas compras, então, vocês têm algum alimento, água, lenha, querosene e algumas outras coisas.
Então meu pai o interrompeu, bem no meio de seu discurso, e com o seu melhor sorriso no rosto, falou.
— É uma satisfação conhecê-lo, Sr. Morgan. Eu me chamo Juarez Moreno. Esta é a minha esposa Rosa. Meus sogros, Sr. João e a senhora Karol; e estes aqui são os meus filhos: Josué e Karen.
— E muito obrigado, Sr. Morgan. Nos perdoe por todo o trabalho que lhe causamos. O Senhor vive por aqui?
— Sim, nós temos um sítio aqui perto. Caso precisem de algo podem nos procurar, ou preferindo, dirijam-se até o povoado de Cerro Negro. Que fica a poucos minutos de carro, naquela direção. — E apontou para a esquerda na estrada.
Após estas apresentações, ele nos mostrou toda a casa e seus arredores. E explicou onde morava com a sua família.
Meu avô, após examinar com a paciência de sempre a estrutura da casa, chegou a conclusão de que era de origem açoreana. Era uma casa muito antiga e sólida. Passamos o resto do dia nos acomodando.
Adorei o meu quarto. Ele tinha uma ampla e rústica janela de uma folha, que teimou um pouco em descortinar a visão de um jardim com grandes árvores e um gramado verdejante. Como a cama era alta, dava para deitar e ficar contemplando a paisagem. As peças de mobília eram rústicas e pesadas. Pareciam feitas para durar séculos.
No dia seguinte, acordei bem cedo e fui explorar o terreno. Ao seguir pela estrada, encontrei dois garotos de minha idade.
— Oi! Meu nome é Balton, e este é meu primo Phyl —, falou o mais alto e ruivo.
— Eu me chamo Josué, sou sobrinho do tio Samuel, irmão de papai.
Caminhando, conversando e às vezes correndo, foi como acabou o encontro. O Balton e o Phyl pareciam conhecer cada palmo da região.
— Ei, Josué! Vamos preparar umas varas para pescar? — Então, cortamos alguns bambus ali perto, e descemos uma ribanceira por um caminho estreito e pedregoso. E passamos a ouvir com nitidez o som de uma corrente de água poderosa.
— Por aqui! — Grita Balton. — Este, Josué, é o rio do rastro. E bem ali, o melhor lugar para pegar carpas e trutas. No entanto, o mais complicado vai ser desenterrar as minhocas.
— Por quê? — Pergunto eu.
— O chão por aqui é cheio de pedras. Mas sabemos sempre onde encontrá-las. Não é, Balton?
— Pode ter certeza. E, Josué, por favor, não espalha por aí o lugar das minhocas. Por aqui, saber isso vale ouro.
— Bom, posso pelo menos contar ao meu pai e avô? Vou convencê-los a vir pescar amanhã.
Depois de um pouco de conversa, acabaram me deixando contar a eles onde existiam as melhores minhocas do lugar.
Foi um dia fantástico, e imaginar que haveria muitos outros dias iguais, ou até melhores. Nos sentamos sobre grandes rochas na margem do rio, e pescamos durante toda a manhã. Mas não estávamos sós, haviam outros pescadores na mesma margem e no outro lado do rio.
O rio não é profundo, e em todos os seus quase cem metros de largura, as suas águas geladas e cristalinas, borbulham e saltam a cada rocha. O seu leito é quase todo forrado de rochas pequenas, médias e gigantescas. Aquele rumorejar de rio nos causava uma sonolência gostosa, e o sol nos aquecia enquanto um vento gelado soprava naquele vale de sombra e sol.
No fim da manhã, após me despedir dos novos amigos, caminhei de volta todo contente. Com meia dúzia de pequenos peixes presos num cipó, e uma sensação de dever cumprido.
Bom, mamãe não pareceu ficar muito contente com os peixes, mas ao perceber a minha cara decepcionada, resolveu prepará-los para o nosso almoço. Foi onde recebi, finalmente, os merecidos elogios. Principalmente do meu avô.
No dia seguinte, bem cedo. Eu, meu pai e vovô, percorremos as mesma trilhas do dia anterior. Todos com varas, uma lata cheia de minhocas, e uma lancheira repleta de sanduíches e três garrafas de suco de morango com um pouco de creme de leite com açúcar. Ficamos no rio toda a manhã, e só regressamos quando a fome apertou. O que mais gostei neste dia maravilhoso, foi ser o guia de pai e vovô pelas trilhas do rio.
Enquanto retornamos, começou uma conversa de papai como vovô.
— Então, Sr. João? — Falou papai. — Não seria melhor o Senhor entregar os peixes para a Rosa. Tenho a impressão de que ela não vai ficar muito contente se eu os levar. Você não acha, Josué?
— Com certeza papai! — O vovô é que não pareceu ficar muito feliz com a ideia, mas assumiu esta honra duvidosa.
Os dias foram passando rápido. Eu já começava a sentir saudades deste lugar. Papai, quando não estava pescando com vovô, permanecia horas e horas tentando pintar alguma paisagem em aquarela. E o meu avô, com o seu cinto de marcenaria do qual quase nunca se separava, realizava infindáveis reparos na velha casa.
— Quanto a mim, não parava um segundo quieto, sempre havia um novo lugar a explorar e o tempo passava voando. Em alguns dias, até os meus novos amigos ficaram cansados com tanta atividade
E uma ideia começou a germinar e se fixar em minha mente. Durante estas férias inesquecíveis, e não saía da minha cabeça. Um dia, no futuro, eu retornaria para cá. E seria para sempre. Se é verdade que todos temos um destino. A partir daquele momento senti no fundo de meu peito, e, passei a ter uma certeza: Iria viver e morrer naquelas belas terras da serra.1
O Livre-pensador (Josué)
1 Continua na quinta parte d´O Contador de Histórias no IG 23, em Dezembro de 2016!
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QUE?
FAZÊ O QUÊ?
SE NADA DO NADA,
SEM NADA FAZER,
TEM TUDO A VER!
FAZÊ O QUÊ?
NA AUSÊNCIA DE TUDO
COM UM POUCO DE NADA,
DE NADA FAZER!
FAZÊ O QUÊ?
QUANDO NO VAZIO DA VIDA
DA MORTE FINITA,
GERAMOS A VIDA
SEM MEDO DO NADA!
FAZÊ O QUÊ?
CAMINHAMOS SOZINHOS
NA ESTRADA VAZIA
DE UM CLARO DIA
PARA UMA NOITE VAZIA!
FAZÊ O QUÊ?
JOGAMOS COM O FUTURO
UM JOGO DE AZAR.
NO DIA A DIA, NA CAMA,
NO MEIO DA SEMANA,
NUM DIA DE AZAR
ELA VAI CHEGAR!
FAZÊ O QUÊ?
É ASSIM DESTE JEITO,
UM JEITO SEM JEITO.
COM UM POUCO DE AZAR
A SUA VIDA VAI FINDAR.
FAZÊ O QUÊ?
NO LIMIAR ESCURO E FRIO DA VASTIDÃO,
NÃO HAVERÁ PERDÃO.
QUER QUEIRA QUER NÃO
É O TEU DIA DA RAZÃO!
FAZÊ O QUÊ?
Antonio Angelo
Cafezinho do zap-zap - Projeto traduções
Maceió, 06/09/2016
- Categoria: Contos Galácticos
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O Chamado do Cosmo
"Para quem sonha sem limites. O universo é a sua casa!"
AS TERRAS JÁ SÃO CONHECIDAS…
O MAR É UM MISTÉRIO…
E O COSMO É UM MISTÉRIO DESCONHECIDO!
VIAJAR POR ELE COM A MENTE,
DESMENTE FATOS,
CRIA-SE A SEMENTE.
A SEMENTE DA VIDA,
DESCONHECIDA DO COSMO,
AGE EM NÓS COMO UM ÍMÃ, UM ALGOZ.
NOS FAZ SORRIR DA DESCOBERTA,
AINDA ENCOBERTA.
NOS LEVA A VIAJAR SEM SAIR DO LUGAR.
UM MODO PODEROSO DE DESVENDAR OS MISTÉRIOS,
ONDE O INFINITO MOLDA A NOSSA IMAGINAÇÃO,
SEM QUALQUER LIMITAÇÃO.
VOAR VOAR SEM SAIR DO LUGAR.
CRIAR CRIAR SEM NUNCA SACIAR.
FUGIR FUGIR DESTE MUNDO CONHECIDO.
CHEGAR CHEGAR NUM MUNDO DESCONHECIDO.
LEVAR LEVAR E AOS AMIGOS EMBALAR.
ESCREVER ESCREVER E NUNCA DEIXAR DE LER!
Projeto traduções
Antonio Angelo
Maceió, 05/09/2016
- Categoria: Contos Galácticos
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Fã de Perry
Um presente para Rhodan – nos seus 55 anos
SONHO DESDE MENINO
UMA ASPIRAÇÃO HUMANA
ESCONDIDA NA ALMA.
NOSSO PASSADO FAZ BROTAR,
IDEAIS DE PAZ E SOSSEGO,
NESTE MAR DE MENTIRAS E DESASSOSSEGO.
MAS A ALMA A MENTE ACALMA.
RELEMBRAMOS UM PASSADO SANGRENTO,
SOBREVIVEMOS AO PRESENTE NO GRITO.
E CRIAMOS UM FUTURO DIFERENTE DENTRO DE NOSSA MENTE.
SEM PRECONCEITO DE COR.
SEM LIMITE DE VALOR.
APENAS COM O CALOR DO NOSSO AMOR.
POR TODO SER QUE VIVEU,
MESMO O AGORA, QUE É SEU!
NOSSA MENTE SEM LIMITES,
ENXERGA UM FUTURO IMAGINADO.
ONDE O UNIVERSO É UM PRESENTE,
PARA UMA HUMANIDADE UNIDA E CRENTE!
Projeto traduções
Antonio Angelo
Maceió, 10/09/2016
- Categoria: Contos Galácticos
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Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A terceira parte d´O Contador de Histórias.
A Varanda
Estamos em junho de 1978 e minha família está novamente reunida. São treze membros; três filhos: Leto o primogênito, com sua esposa Karla e seu filho Fábio; a Sophie com o marido Jorge e seus filhos: José, João e Karla; e a minha caçula Karim, com o marido Ted e a minha netinha Luiza, com apenas seis meses. Hoje a noite temos alguns convidados e parentes: o Rubem com a sua esposa Ivete, e seus dois filhos. Eles já estão conosco há alguns dias. O mais velho, o pequeno Eleazar, despertou-me um carinho todo especial. Ele é esperto e curioso. Vou observá-lo com atenção esta noite.
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