- Categoria: Contos Galácticos
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O Contador de Histórias - Férias, na Serra do Rio do Rastro
Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A quarta parte d´O Contador de Histórias.
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Férias, na Serra do Rio do Rastro
Eu tinha então 13 anos, e nossa família era constituída por meus pais, minha irmã, e os pais de minha mãe. Morávamos no município de São Miguel das Missões no estado do Rio Grande do Sul.
Meu pai era médico e mamãe uma professora. Nesta época, a minha irmã Karen tinha apenas quatro anos - Como sabem, ela faleceu há cerca de dez anos. E nossos avós por parte de mãe, moravam conosco.
Especialmente com o meu avô João, eu tinha um relacionamento para lá de especial. Quanto a minha querida avó Karol, ela era uma beata de carteirinha. A sua devoção era lendária. Recordo-me como costumava exibir, com orgulho indisfarçado, as suas chagas. Eram marcas arredondadas e escuras em ambos os joelhos. Causadas por permanecer ajoelhada por horas e horas em profunda adoração na igreja de nossa pequena cidade.
Naquele ano, decidimos não veranear na praia de Torres, no estado do Rio Grande do Sul. Meu pai entrou em contato com Samuel, o meu avô por parte de pai. Ele vivia nas serras do estado de Santa Catarina, junto a outros parentes de nossa grande família. E fomos convidados a ocupar uma linda casa, localizada próximo a cidade de São Joaquim. Onde atualmente é o parque nacional dos Aparados da Serra. Este lugar, fica a uns cem quilômetros de onde estamos. A casa ainda esta lá e é habitada até hoje.
Após dias de meticuloso planejamento, principalmente devido aos cuidados com a saúde de Karen. Partimos com o nosso surrado Ford de cor preta, arrastando de má vontade um carrinho coberto de lona. Onde os apetrechos de Karen, ocupavam quase todo o espaço.
Durante a longa viagem, passamos perto do mar, subimos serras e atravessamos muitos rios e riachos. As pequenas janelas do carro eram vitrines coloridas e fugazes. As vilas dos colonos atraiam a minha atenção, com suas casas de vários estilos de construção. Principalmente aquelas de telhados pontudos. E aí, não deu outra, passei a cobrir o meu avô com uma torrente de perguntas.
Como antigo marceneiro que era, ele explicava tudo de boa vontade.
— “Meu neto, observe a copa dos pinheiros a nossa volta. Você vê algo neles semelhante as casas?”
Pensei, pensei, e acenei para ele afirmativamente. É a forma cônica do telhado das casas, não é?
— “Parabéns! A inclinação acentuada da copa das diversas espécies de pinheiros, impede que a neve se acumule sobre elas e cause danos. Assim como aconteceria com as casas".
— "A natureza é a melhor professora do universo Josué. Ela é capaz de tornar até as árvores que não tem cérebro, seres sábios. No entanto aqui na serra, o perigo de nevasca é quase inexistente. Eu nunca soube de uma nevasca forte o bastante para por em perigo os seus habitantes".
— "Os colonos mantêm suas casas assim, com esta arquitetura, como uma forma de preservar a sua cultura. Pois vieram de terras distantes, onde nevascas são constante. Observe com atenção Josué, e verá distintas formas de construir as casas. Alguns preferem madeira, como os ães e íços, outros como os açoreanos e espanhóis, a alvenaria. Para mim, é suficiente o formato dos telhados, portas, janelas, e o material de construção das casas; para poder afirmar com alguma certeza, o povo que a construiu".
Aproveitando a sua boa vontade. Eu lhe perguntei o porquê de algumas igrejas dos povoados possuírem imagens e belos vitrais coloridos. Enquanto outras, pareciam tão simples, sem nenhum adereço. E ele em sua eterna gentileza e paciência me respondia sempre.
— “Filho, esta é uma terra de imigrantes. Aqui na serra estão representados um grande número de povos, vindos das mais variadas partes do mundo".
— "Grande parte deles, Josué, a sua família vêm reunindo aqui há gerações. E eles trouxeram consigo as suas diferentes formas de honrar a Deus. Os católicos, por exemplo, apreciam imagens e belos vitrais em suas igrejas. Já os protestantes ou luteranos, não compartilham desta cultura.”
Ouvi um resmungo baixo ao lado de vovô. E a minha avó falou cheia de convicção. — “São todos uns pecadores e traidores do representante de Jesus na Terra - São Pedro. Ele foi o maior dos apóstolos e o legítimo herdeiro do filho de Deus na Terra. Glória eterna, ao meu Senhor, Jesus Cristo!"
Curioso, eu olhei para o vovô. Ele me deu uma piscadela divertida e me cutucou levemente. Então, dei um pigarro e falei o protocolo para situações assemelhadas.
— Amém!
E continuamos pulando pelo caminho, através de vales e montanhas. Vez por outra, meu avô descia do carro para obter informações nas vilas. Ele falava com entusiasmo e naturalidade, uma meia dúzia de idiomas.
Papai até brincou com ele.
— “Sr. João, parece que o seu conhecimento do Alemão, Húngaro, Italiano, Espanhol e sei lá mais o quê, não enferrujou nem um pouco!”
— “Ah, meu filho! Foram muitos anos perambulando nestas serras. Viajando de vila em vila, exercendo o meu ofício. Foi uma pena ter encontrado tão poucos amigos daqueles tempos."
E papai, continuou.
— “Sr. João, eu não sabia que conhecia tão bem estas terras. Não sei se sabe, mas a minha Família vive aqui a gerações, e tem verdadeira adoração por estes vales. Eu sou o único que resolveu viver longe".
— “Juarez, eu conheço a história da sua Família e sou amigo de muitos deles. Durante a minha juventude eu fui um construtor de casas muito respeitado por estas bandas".
Finalmente chegamos á serra do rio do rastro. Subimos uma cadeia de montanhas particularmente alta, através de uma estrada tortuosa e estreita da qual se divisava lá no fundo um rio. E por fim, avistamos os famosos e impressionantes capões de araucárias. Um campo aberto, suavemente ondulado e aparentemente infinito. Coberto de uma relva alta e dourada, entremeada aqui e ali por arbustos, pinheiros brabos e bosques de gigantescas araucárias.
— “Chegamos!!" — Falaram quase ao mesmo tempo, papai e vovô.
E avistamos após uma meia hora de caminho. No ponto mais alto de uma suave colina arborizada, uma charmosa casa de madeira e rochas.
Ela é cercada por um muro baixo de rochas velhas. Algumas araucárias e inúmeros arbustos, muitos deles floridos, rodeiam a residência. Achei tudo muito bonito, silencioso e relaxante. A arquitetura da casa era indefinida para mim, parecia baixa e atarracada. Embora forte e indiferente ao tempo.
Enquanto nos aproximávamos por uma delicada estrada coberta de cascalhos, escutei uma sinfonia de sons, sob os pneus do carro. Parecia um convite de boas vindas.
Vindo pelo caminho de seixos, um senhor de cabelos grisalhos caminha a passos firmes. Ele aparenta avançada idade, como meu avô. Seus gestos são comedidos, até reservados, típico destes moradores do interior. Usava um macacão azul desbotado e uma camisa branca de botões com as mangas arregaçadas. Era certamente um colono da região.
— Olá! Bom dia a todos e bem-vindos! Meu nome é Morgan. Fui informado por seus irmãos, que o senhor viria para ficar conosco algumas semanas. Adiantei algumas compras, então, vocês têm algum alimento, água, lenha, querosene e algumas outras coisas.
Então meu pai o interrompeu, bem no meio de seu discurso, e com o seu melhor sorriso no rosto, falou.
— É uma satisfação conhecê-lo, Sr. Morgan. Eu me chamo Juarez Moreno. Esta é a minha esposa Rosa. Meus sogros, Sr. João e a senhora Karol; e estes aqui são os meus filhos: Josué e Karen.
— E muito obrigado, Sr. Morgan. Nos perdoe por todo o trabalho que lhe causamos. O Senhor vive por aqui?
— Sim, nós temos um sítio aqui perto. Caso precisem de algo podem nos procurar, ou preferindo, dirijam-se até o povoado de Cerro Negro. Que fica a poucos minutos de carro, naquela direção. — E apontou para a esquerda na estrada.
Após estas apresentações, ele nos mostrou toda a casa e seus arredores. E explicou onde morava com a sua família.
Meu avô, após examinar com a paciência de sempre a estrutura da casa, chegou a conclusão de que era de origem açoreana. Era uma casa muito antiga e sólida. Passamos o resto do dia nos acomodando.
Adorei o meu quarto. Ele tinha uma ampla e rústica janela de uma folha, que teimou um pouco em descortinar a visão de um jardim com grandes árvores e um gramado verdejante. Como a cama era alta, dava para deitar e ficar contemplando a paisagem. As peças de mobília eram rústicas e pesadas. Pareciam feitas para durar séculos.
No dia seguinte, acordei bem cedo e fui explorar o terreno. Ao seguir pela estrada, encontrei dois garotos de minha idade.
— Oi! Meu nome é Balton, e este é meu primo Phyl —, falou o mais alto e ruivo.
— Eu me chamo Josué, sou sobrinho do tio Samuel, irmão de papai.
Caminhando, conversando e às vezes correndo, foi como acabou o encontro. O Balton e o Phyl pareciam conhecer cada palmo da região.
— Ei, Josué! Vamos preparar umas varas para pescar? — Então, cortamos alguns bambus ali perto, e descemos uma ribanceira por um caminho estreito e pedregoso. E passamos a ouvir com nitidez o som de uma corrente de água poderosa.
— Por aqui! — Grita Balton. — Este, Josué, é o rio do rastro. E bem ali, o melhor lugar para pegar carpas e trutas. No entanto, o mais complicado vai ser desenterrar as minhocas.
— Por quê? — Pergunto eu.
— O chão por aqui é cheio de pedras. Mas sabemos sempre onde encontrá-las. Não é, Balton?
— Pode ter certeza. E, Josué, por favor, não espalha por aí o lugar das minhocas. Por aqui, saber isso vale ouro.
— Bom, posso pelo menos contar ao meu pai e avô? Vou convencê-los a vir pescar amanhã.
Depois de um pouco de conversa, acabaram me deixando contar a eles onde existiam as melhores minhocas do lugar.
Foi um dia fantástico, e imaginar que haveria muitos outros dias iguais, ou até melhores. Nos sentamos sobre grandes rochas na margem do rio, e pescamos durante toda a manhã. Mas não estávamos sós, haviam outros pescadores na mesma margem e no outro lado do rio.
O rio não é profundo, e em todos os seus quase cem metros de largura, as suas águas geladas e cristalinas, borbulham e saltam a cada rocha. O seu leito é quase todo forrado de rochas pequenas, médias e gigantescas. Aquele rumorejar de rio nos causava uma sonolência gostosa, e o sol nos aquecia enquanto um vento gelado soprava naquele vale de sombra e sol.
No fim da manhã, após me despedir dos novos amigos, caminhei de volta todo contente. Com meia dúzia de pequenos peixes presos num cipó, e uma sensação de dever cumprido.
Bom, mamãe não pareceu ficar muito contente com os peixes, mas ao perceber a minha cara decepcionada, resolveu prepará-los para o nosso almoço. Foi onde recebi, finalmente, os merecidos elogios. Principalmente do meu avô.
No dia seguinte, bem cedo. Eu, meu pai e vovô, percorremos as mesma trilhas do dia anterior. Todos com varas, uma lata cheia de minhocas, e uma lancheira repleta de sanduíches e três garrafas de suco de morango com um pouco de creme de leite com açúcar. Ficamos no rio toda a manhã, e só regressamos quando a fome apertou. O que mais gostei neste dia maravilhoso, foi ser o guia de pai e vovô pelas trilhas do rio.
Enquanto retornamos, começou uma conversa de papai como vovô.
— Então, Sr. João? — Falou papai. — Não seria melhor o Senhor entregar os peixes para a Rosa. Tenho a impressão de que ela não vai ficar muito contente se eu os levar. Você não acha, Josué?
— Com certeza papai! — O vovô é que não pareceu ficar muito feliz com a ideia, mas assumiu esta honra duvidosa.
Os dias foram passando rápido. Eu já começava a sentir saudades deste lugar. Papai, quando não estava pescando com vovô, permanecia horas e horas tentando pintar alguma paisagem em aquarela. E o meu avô, com o seu cinto de marcenaria do qual quase nunca se separava, realizava infindáveis reparos na velha casa.
— Quanto a mim, não parava um segundo quieto, sempre havia um novo lugar a explorar e o tempo passava voando. Em alguns dias, até os meus novos amigos ficaram cansados com tanta atividade
E uma ideia começou a germinar e se fixar em minha mente. Durante estas férias inesquecíveis, e não saía da minha cabeça. Um dia, no futuro, eu retornaria para cá. E seria para sempre. Se é verdade que todos temos um destino. A partir daquele momento senti no fundo de meu peito, e, passei a ter uma certeza: Iria viver e morrer naquelas belas terras da serra.1
O Livre-pensador (Josué)
1 Continua na quinta parte d´O Contador de Histórias no IG 23, em Dezembro de 2016!